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Quando outra pessoa nos mostra quem estamos nos tornando

há 14 horas
4 min de leitura

Acho que ontem, depois de tanto tempo, eu redescobri o amor. Não exatamente o amor por alguém, porque seria uma mentira dizer que amo você. Talvez seja uma coisa ainda mais difícil de admitir: você me fez lembrar do tipo de amor que eu quero. E talvez tenha sido justamente isso que me desarmou.


Você não chegou como eu imaginava que alguém chegaria. Não veio disposto a me conquistar, não veio com aquela urgência que costuma confundir desejo com sentimento, nem com a necessidade de ocupar todos os espaços. Veio calmo. Tranquilo. E foi ficando. Talvez você não saiba, mas existe alguma coisa profundamente assustadora em alguém que não precisa fazer esforço para permanecer.


Você enxergou coisas em mim que eu passei anos aprendendo a esconder. Fez uma leitura quase cirúrgica das minhas vulnerabilidades, encontrou lugares que eu mesma evito visitar e, quando percebeu que eu estava tentando fugir, não correu atrás de mim. Só ficou ali. Insistindo sem invadir, chegando sem forçar, me lembrando que talvez eu pudesse simplesmente ficar também.


Eu lutei contra isso. É claro que lutei. Eu sei fazer isso muito bem. Tenho uma coleção inteira de mecanismos de defesa e uma habilidade quase profissional de encontrar motivos para ir embora antes que alguém tenha a oportunidade de me machucar. Meu corpo queria sair, minha cabeça já estava construindo argumentos e minha boca provavelmente teria encontrado alguma coisa inteligente para estragar tudo. Mas, dessa vez, alguma coisa em mim fez o movimento contrário. Eu quis ficar.


Quis morar naquele abraço por mais um tempo. Quis continuar ali, com os lábios encostados, sem precisar entender o que estava acontecendo. E foi justamente quando eu parei de tentar entender que comecei a entender. Talvez seja por isso que você tenha me causado tanta coisa.


Porque eu não estou apaixonada por você. Não ainda, talvez nem nunca. Mas existe uma parte de mim que está apaixonada pela possibilidade do que você me mostrou. Pela possibilidade de existir alguém que consiga olhar para a minha intensidade sem querer diminuí-la, que consiga conhecer minhas contradições sem transformá-las em motivo para partir, que consiga discordar de mim sem deixar de me respeitar e que não precise concordar com a maneira como eu enxergo o mundo para cuidar da maneira como eu existo nele. Isso, para mim, é quase uma novidade.


Você foi embora, como sempre vai. Calmo, tranquilo, sem fazer daquela despedida uma promessa e sem tentar transformar o que existe entre nós em algo que ainda não existe. E talvez essa seja uma das coisas que mais me desarmam em você: essa honestidade que não tenta me agradar, essa capacidade de não enxergar o mundo pelas minhas lentes e, ainda assim, não tentar quebrar as minhas.


Eu passei anos tentando entender algumas coisas sobre mim. E talvez seja um pouco injusto dizer que você me ensinou mais em algumas noites do que os últimos anos que vivi, porque não foi isso. Você só tocou em lugares que já estavam sendo construídos há muito tempo e, de repente, eles fizeram sentido de um jeito diferente. Como se alguém tivesse aberto uma janela em uma casa onde eu já morava há anos e eu descobrisse que existia uma paisagem do outro lado.


Eu não tive tempo de dizer tudo. Talvez nem soubesse dizer. Sou muito boa em falar sobre quase qualquer coisa, mas algumas coisas me deixam sem linguagem. Então fica aqui o que eu não consegui dizer olhando para você: obrigada.


Obrigada por insistir quando eu tentei fugir. Por não transformar a minha resistência em rejeição. Por me mostrar que talvez eu não precise estar completamente curada dos meus medos para deixar alguém chegar perto. E, principalmente, obrigada por me fazer lembrar que a vida pode ser bonita quando a gente não está tentando controlar o próximo capítulo.


Mesmo que seja só uma noite. Mesmo que seja só uma história que vai terminar antes de virar história. Mesmo que exista a possibilidade de a gente nunca mais se encontrar.


Eu achei isso da primeira vez.


E agora já é a terceira noite que passamos acordados, enquanto os meus demônios convidam os seus para dançar e você, ao invés de fugir da música, ainda faz questão de escolher qual vai tocar.


Talvez seja isso que tenha me tocado tanto. Não você, exatamente, mas quem eu consigo ser quando estou diante de você. A gente passa anos acreditando que se conhece, fazendo terapia, entendendo os próprios padrões, dando nome aos medos e jurando que aprendeu a não repeti-los. Mas existe uma diferença enorme entre saber que mudou e encontrar alguém que coloca essa mudança à prova.


Foi preciso você aparecer para eu perceber que algumas coisas em mim já não são mais como antes.


Que eu ainda tenho medo, mas não fujo imediatamente. Que ainda desconfio, mas consigo ficar. Que ainda quero controlar tudo, mas, às vezes, consigo simplesmente viver o que está acontecendo. E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas que alguém pode fazer pela gente sem sequer perceber: servir de espelho para uma versão nossa que ainda não tínhamos conseguido enxergar.


E talvez amar, às vezes, nem seja sobre amar alguém. Talvez seja sobre finalmente reconhecer, no reflexo de outra pessoa, que alguma coisa dentro da gente mudou.


Com carinho,

Isa.

 

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