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Algumas pessoas não voltam. E isso não significa que elas deixaram de ser bonitas na nossa história.

Hoje, enquanto arrumava as caixas da mudança, encontrei um caderno antigo. Entre algumas anotações e papéis que eu já nem lembrava que existiam, havia uma fotografia sua. Eu sorri. Não foi aquele sorriso nostálgico de quem gostaria de voltar no tempo; foi um sorriso tranquilo, quase de gratidão. É engraçado como uma fotografia consegue congelar uma versão da vida que já não existe mais e, ainda assim, fazer a gente lembrar exatamente de como se sentia naquele momento.


Você estava com o bigode que, aliás, foi uma sugestão minha. Sempre achei que combinava muito com você. Na época eu insisti, você deixou crescer e eu nunca perdi a oportunidade de dizer que estava certa. Anos depois, continuo achando.


E foi olhando para aquela foto que eu percebi uma coisa curiosa: eu ainda amo algumas pessoas que passaram pela minha vida. Não do jeito que as pessoas imaginam quando falam em amor. Não existe vontade de voltar, nem a fantasia de que "se tivesse dado certo". Existe apenas um carinho enorme por alguém que fez parte da minha história e que, de alguma forma, ajudou a construir a pessoa que sou hoje.


Acho que crescemos acreditando que, quando um relacionamento termina, o sentimento precisa morrer junto, como se seguir em frente exigisse apagar tudo o que existiu antes ou como se admitir que ainda existe carinho por alguém fosse uma prova de que você não superou. Nunca concordei muito com isso. Talvez porque eu tenha aprendido que o amor não desaparece; ele só muda de lugar. Ele deixa de ser presença e vira memória. Deixa de ser plano e vira gratidão. Deixa de ser expectativa e passa a ser apenas uma parte bonita da nossa história.


Acho super engraçado quando alguém com capacidade limitada comenta que eu "odeio os homens". Acho curioso como algumas pessoas chegam a essa conclusão só porque escolhi não aceitar qualquer relacionamento ou porque falo abertamente sobre machismo. A verdade é justamente o contrário. Conheci homens extraordinários ao longo da vida: homens gentis, inteligentes, respeitosos, divertidos, que me ensinaram muito sobre afeto, amizade e admiração. Talvez seja justamente por isso que hoje eu não aceite menos do que sei que existe. Os homens ruins que passaram pela minha vida não me fizeram desacreditar dos outros; eles apenas me ensinaram a observar melhor.


Maturidade, para mim, tem muito mais a ver com refinar filtros do que endurecer o coração. E você nunca precisou passar por filtro nenhum. Talvez seja por isso que essa fotografia tenha me feito sorrir. Porque ela não me lembrou de uma história que acabou; ela me lembrou que algumas histórias simplesmente cumprem o propósito que tinham. Nem tudo o que termina fracassou. Essa talvez seja uma das ideias mais libertadoras que aprendi nos últimos anos.


Existe uma mania estranha de medir o sucesso dos relacionamentos pelo tempo que eles duram, como se só fosse bonito aquilo que chega ao casamento, aos cinquenta anos juntos ou ao "felizes para sempre". Mas algumas pessoas passam pela nossa vida exatamente pelo tempo necessário. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. E isso não diminui em absolutamente nada o que foi vivido. Pelo contrário, talvez torne tudo ainda mais precioso.


Depois daquela fotografia, fiquei pensando que faz tempo que não escrevo sobre amor. Talvez porque as pessoas ainda associem amor exclusivamente ao romance, mas, quanto mais envelheço, menos acredito nisso. Hoje eu sei que amor também mora nas amizades que permaneceram. Na família que acolhe. Na professora que mudou nossa forma de enxergar o mundo. Na cidade que nos recebeu quando mais precisávamos. Na cachorrinha que esteve ao nosso lado por oito anos. Na gatinha que apareceu quando a casa ficou silenciosa demais. No amigo que liga sem motivo. Na cerveja compartilhada numa quinta-feira qualquer. O amor romântico continua sendo bonito, só deixou de ser o único amor que importa. E talvez essa tenha sido uma das maiores descobertas da minha vida adulta.


Escrevo isso porque ainda existe uma ideia de que toda mulher solteira, no fundo, está esperando alguém aparecer, como se a felicidade fosse sempre provisória enquanto não existe um relacionamento. Não é. Minha vida está cheia de afetos. Cheia de projetos. Cheia de pessoas incríveis. Cheia de liberdade. Se um dia alguém chegar para compartilhar isso comigo, será maravilhoso. Mas compartilhar nunca foi a mesma coisa que completar.


A fotografia continuava ali, entre as páginas do caderno. Fiquei olhando para ela mais alguns minutos. Depois rasguei. Não por raiva, nem porque precisava esquecer você, muito menos porque alguém que vier depois precise competir com uma lembrança. Rasguei porque entendi que aquela fotografia já tinha cumprido sua missão. Você já não morava mais naquele papel; você mora na lembrança bonita que ficou. E memória nenhuma precisa de moldura para continuar existindo.


Espero que a vida tenha sido gentil com você. Espero que você continue rindo daquele mesmo jeito. Espero que continue sendo feliz. Porque, no fim das contas, talvez seja isso que o amor faça quando amadurece: ele deixa de querer possuir e aprende simplesmente a desejar o bem.


E, sinceramente, acho que existe uma beleza enorme nisso.


Com carinho,

Isa.

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