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Nem toda conversa desconfortável é tóxica e talvez a gente tenha esquecido disso

Recentemente, durante uma conversa, uma pessoa começou a questionar algumas coisas que eu dizia. Nada agressivo. Nada ofensivo. Pelo contrário: ela apenas pontuava, corrigia, discordava de alguns detalhes e aprofundava determinados assuntos. Uma conversa comum entre duas pessoas adultas.



Mas a forma como aquilo me atravessou foi tudo, menos comum.


Eu comecei a me sentir burra.


Mesmo quando tentava reformular o que havia dito ou explicar melhor meu ponto, parecia que eu continuava sendo analisada. E quanto mais eu sentia que precisava “acertar”, mais desconfortável eu ficava. Minha reação foi automática: comecei a falar menos, opinar menos, tentar ocupar menos espaço naquela conversa.


E isso mexeu muito comigo porque, normalmente, eu sou a pessoa que provoca desconforto intelectual nos outros.


Eu sou intensa nas conversas. Gosto de debates longos, de filosofar sobre comportamento humano, relações, política, emoções, sociedade.


Tenho facilidade em argumentar, em aprofundar temas, em provocar reflexão. E foi justamente por isso que aquela experiência me fez pensar tanto.

Porque, pela primeira vez em muito tempo, eu senti na pele como é desconfortável estar diante de alguém que faz você se sentir insuficiente intelectualmente.


E não, não estou dizendo que a pessoa fez isso por mal. Acho importante deixar isso claro. O desconforto nasceu muito mais da forma como eu recebi aquilo do que da intenção dela.


Mas foi impossível não refletir sobre o quanto, sem perceber, talvez eu já tenha feito outras pessoas se sentirem exatamente assim.


Depois daquela conversa, comecei a lembrar de situações antigas. Pessoas que ficavam mais quietas perto de mim. Gente que evitava desenvolver certos assuntos comigo. Relações em que, olhando hoje, percebo que eu ditava o ritmo da conversa sem perceber.


E não porque eu não deixasse os outros falarem. Muito pelo contrário. Eu sempre fui alguém curiosa, que gosta de ouvir, provocar perguntas, criar discussões profundas. O problema é que nem todo mundo quer — ou está emocionalmente preparado — para esse tipo de troca o tempo inteiro.


E está tudo bem.


Talvez maturidade também seja entender que inteligência não pode virar performance.


Lembrei também de uma frase que ouvi, dita por uma amiga:


— “Você me faz sentir burra.”


Na época, aquilo me chocou profundamente. Como assim eu tinha esse efeito em alguém? Que loucura é perceber que nossa forma de conversar pode atravessar o outro de maneiras tão diferentes da intenção que temos.


Mas depois daquela conversa recente, comecei a olhar para essa frase de outro jeito.


Será que eu fazia ela se sentir burra… ou será que ela estava acostumada a conviver apenas em espaços onde era constantemente validada?


E talvez as duas coisas possam coexistir ao mesmo tempo.


Porque existe uma diferença enorme entre provocar reflexão e transformar toda conversa em um teste intelectual.


Só que também existe outra questão que me intriga: nossa incapacidade crescente de lidar com desconfortos emocionais mínimos.


Hoje em dia, qualquer discordância parece virar sinônimo de toxicidade. Qualquer frustração vira gatilho para rompimento. Qualquer sensação de inadequação já nos faz querer fugir da conversa, bloquear alguém ou buscar validação imediata em outro lugar.


E acho que parte disso também tem relação com a forma como estamos nos relacionando com a internet — e até com a inteligência artificial. A gente se acostumou demais a ser validado.


Você abre uma rede social e sempre encontra pessoas dizendo exatamente o que quer ouvir.


Você pergunta algo para o algoritmo, e ele organiza respostas baseado no que tende a te agradar, no que confirma suas crenças, no que mantém você confortável dentro da própria narrativa.


Isso tem nome: viés de confirmação.


A tendência humana de buscar apenas informações que reforcem aquilo que já acreditamos.


E talvez estejamos ficando emocionalmente despreparados para o contrário: sermos confrontados.


Não no sentido agressivo. Mas no sentido humano mesmo. De alguém discordar. Corrigir. Pontuar. Fazer a gente pensar. Fazer a gente perceber que talvez não sejamos tão brilhantes quanto gostaríamos de acreditar o tempo inteiro.


Porque ninguém é.


E honestamente? Acho perigosíssimo quando começamos a acreditar que só relações que nos validam o tempo inteiro são relações saudáveis.

As relações mais importantes da minha vida não foram feitas apenas de concordância. Foram feitas, principalmente, de espaço para conversas difíceis.

Acho que a grande diferença está em como isso acontece.


Uma amizade se torna tóxica quando você expressa um desconforto legítimo e a outra pessoa transforma o seu limite em ofensa pessoal.


Quando pedir respeito vira “drama”. Quando dizer “isso me machucou” vira motivo para afastamento.


E percebo como estamos cada vez mais intolerantes ao desconforto natural das relações humanas.


Hoje é muito fácil cortar vínculos. Basta parar de responder. Silenciar. Bloquear. Sumir. Tudo acontece sem elaboração nenhuma.


Só que relações reais não sobrevivem apenas nos dias leves.


Elas sobrevivem, principalmente, na forma como lidamos com frustrações, diferenças e pequenas decepções.


Tenho pensado muito sobre isso porque precisei ressignificar muitas relações nos últimos anos. E, nesse processo, comecei a perceber a diferença entre conexões genuínas e relações construídas apenas na troca constante de validação.


Recentemente, por exemplo, tentei construir uma amizade em que existia uma cobrança silenciosa por aprovação o tempo inteiro. Se eu não curtisse, comentasse ou reforçasse constantemente o trabalho da pessoa, ela se incomodava. E quando fazia algo parecido comigo, fazia questão de lembrar que “me apoiava”, quase como uma moeda emocional de troca.


Como se carinho precisasse sempre gerar dívida.


E talvez o mais curioso da vida adulta seja perceber que continuamos sendo, muitas vezes, as mesmas crianças emocionais de antigamente — só que agora usando boletos, terapia e linguagem sofisticada.


O menino mimado da escola raramente deixa de existir completamente. A criança insegura também não. A adolescente que precisava desesperadamente ser aceita continua viva em algum lugar. A gente apenas aprende a disfarçar melhor.


Por isso aquela conversa mexeu tanto comigo. Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém me fez sentir intelectualmente pequena. E em vez de transformar isso em raiva ou defensiva, tentei transformar em reflexão.


Percebi que posso melhorar minha comunicação. Posso ser menos prolixa. Posso aprender a tornar minhas ideias mais acessíveis sem transformar toda troca em profundidade exaustiva.


Mas também percebi outra coisa importante: eu senti falta daquele desconforto.


Senti falta de conversar com alguém que não apenas concordasse comigo o tempo inteiro. Porque talvez uma das coisas mais perigosas da vida adulta seja viver cercado apenas de pessoas que validam tudo o que fazemos.


E talvez amadurecer seja justamente isso: aprender a sustentar conversas desconfortáveis sem transformar o outro em inimigo.


No fim das contas, relações reais não existem apenas para massagear nosso ego.


Elas existem, também, para expandir quem somos.


E talvez seja exatamente por isso que o nosso Blog existe.


Pra criar espaço para conversas reais. Textos que atravessam. Reflexões desconfortáveis. Histórias que muitas vezes as mulheres vivem em silêncio, mas raramente encontram um lugar seguro para colocar em palavras.


O Beba Como Uma Garota sempre foi mais do que cerveja. É sobre vivência, troca, liberdade, vulnerabilidade e tudo aquilo que a gente aprende quando para de tentar parecer perfeita o tempo todo.


Então, se você também escreve, tem uma crônica, um relato, uma reflexão ou um texto que gostaria de ver publicado aqui no blog, saiba que esse espaço também pode ser seu.


📩 É só enviar para:


Porque talvez uma das coisas mais bonitas da internet ainda seja descobrir que, do outro lado da tela, existe alguém sentindo exatamente o mesmo que você.


Bons drinks,

Isa.

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