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Existem mulheres solteiras e felizes. Talvez você só nunca tenha conhecido uma



Quantas mulheres solteiras e felizes você conhece de verdade?


Esses dias, durante uma conversa despretensiosa, enquanto eu bebia minha cerveja e comia meu nobre churrasquinho, super tranquila depois do treino, uma conhecida comentou que viajaria com a família e me chamou para ir junto. Quando percebi que seria uma viagem mais familiar, disse que seria legal irem apenas eles, para aproveitarem o momento em família e em casal. Foi então que ela respondeu, rindo:


— “Depois de dez anos juntos, não existe mais casal.”


Todo mundo riu. Eu também. Mas outra mulher que estava ali, ouvindo a conversa em silêncio, virou para mim e disse algo que me atravessou profundamente:


— “Eu queria ter a coragem que você tem.”


E aquilo ficou ecoando na minha cabeça. Coragem para quê? Então perguntei:


— “De recusar o convite?”


E ela me respondeu de uma forma exausta:


— “De estar aqui tranquila, super bem por não ter ninguém. Ser livre assim, fazer o que quer, ir para onde quer.”


Foi aí que eu entendi o que ela cobiçava: a possibilidade de estar sozinha sem transformar isso em sofrimento. Não viver correndo atrás de um relacionamento. Não tratar um homem como o centro da própria existência.


Então eu perguntei para ela:


— Quantas mulheres solteiras e felizes você conhece?


Ela pensou por alguns segundos antes de responder:


— Nenhuma.


E eu devolvi:


— E quantas mulheres casadas e plenamente felizes você conhece?


Ela respondeu sorrindo:


— Difícil. Nenhuma também.


Foi aí que eu ri e falei:


— Então prazer. Acho que eu sou a primeira mulher solteira e feliz que você está conhecendo.


E eu digo isso sem arrogância nenhuma. Digo porque entendo exatamente de onde vem esse espanto. Nós crescemos sendo ensinadas que a felicidade feminina está sempre ligada a um relacionamento. A narrativa é quase sempre a mesma: encontrar alguém, construir uma família, viver um grande amor e, então, finalmente descansar naquela ideia pronta de felicidade.


Só que existe um detalhe que quase nunca nos contam: muitas mulheres estão exaustas tentando sustentar esse ideal.


Eu lembro que, há anos, quando descobri uma traição dentro de um relacionamento longo, sentei na terapia e falei algo que nunca esqueci:


“Eu não quero transformar esse homem em todos os homens. O fato dele ter me traído não significa que todos vão fazer isso.”

Mas também lembro de perceber outra coisa naquela época: eu não tinha nenhuma referência de mulher solteira, feliz, segura e realizada. Nenhuma.


Todas as mulheres à minha volta estavam em relacionamentos, tentando entrar em um ou vivendo em função deles. O amor romântico era o centro gravitacional de tudo. E foi ali, naquele momento doloroso, que pensei: talvez eu precise me tornar essa referência que eu nunca tive.


Não como alguém que odeia relacionamentos. Muito pelo contrário. Eu continuo acreditando no amor. Mas hoje eu entendo que amor não pode ser sinônimo de abandono de si mesma.


Existe uma diferença enorme entre compartilhar a vida e depender emocionalmente de alguém para sentir que ela faz sentido.


E talvez a maior dificuldade da mulher solteira não seja a ausência de um relacionamento. Talvez seja a ausência de uma rede de apoio verdadeira.


A carência nem sempre tem relação com desejo romântico ou sexual. Muitas vezes ela nasce da falta de acolhimento, de conversa, de troca, de presença. Nasce do fato de que fomos ensinadas a construir nossa vida emocional inteira ao redor de um parceiro, enquanto amizades femininas ficam sempre em segundo plano.


E tem uma coisa que comecei a perceber com o tempo, e talvez seja desconfortável falar sobre isso: muitas mulheres também não sabem construir amizades fora do sofrimento.


Quantas vezes mulheres recém-solteiras me mandaram mensagem querendo sair, conversar, beber alguma coisa, criar rotina, fortalecer vínculo… mas bastou entrarem em um novo relacionamento para desaparecerem completamente?


E isso não é um julgamento. É uma percepção triste. Porque depois a gente reclama que é difícil fazer amizades verdadeiras na vida adulta, mas muitas vezes só buscamos presença quando estamos carentes, sofrendo ou nos sentindo sozinhas. Quando a vida melhora ou um relacionamento começa, aquelas amizades deixam de ser prioridade imediatamente.


Talvez por isso tantas mulheres se sintam tão vazias quando terminam um relacionamento: porque sem perceber, foram deixando todas as outras formas de amor morrerem pelo caminho.


Amizade também exige construção. Presença. Interesse. Continuidade.


A gente não pode querer uma rede de apoio apenas para nos segurar quando tudo desmorona. Rede de apoio também se constrói nos dias comuns, nos almoços aleatórios, nos áudios longos, nos convites aceitos mesmo sem “motivo”.


E isso fica ainda mais evidente depois de certa idade, quando muitas amizades passam a girar completamente em torno da rotina de um casal. Tudo envolve o marido. Tudo depende do relacionamento. Tudo precisa incluir o parceiro.


Por isso, depois que passei a morar sozinha, entendi que precisava construir conscientemente uma vida cheia de outras coisas.


Eu entendo que, financeiramente, não é fácil sustentar uma casa, principalmente quando há filhos e somos responsáveis por eles. Mas a verdade é que a gente passa aperto estando junto ou não. E, sinceramente, quando lembro que posso sentar em um churrasquinho numa quinta-feira, tomar minha cerveja, conversar com quem eu quiser e voltar para uma casa exatamente do jeito que deixei — limpa, silenciosa e organizada — eu entendo que fiz a melhor escolha emocionalmente para mim.


Eu comecei a ocupar meu tempo de formas que me conectassem comigo mesma. Voltei a estudar. Entrei em grupos de leitura com mulheres incríveis. Me aproximei de pessoas que compartilham interesses parecidos com os meus. Criei rotinas. Fiz do autocuidado um compromisso sério.


Há dois anos treino karatê praticamente sem faltar um dia. Não apenas pelo exercício físico, mas porque entendi que uma mente vazia, principalmente durante processos de solidão, pode virar um lugar muito cruel.


E também teve a Elvira.


Elvira

Depois que perdi minha cachorrinha, Cherry, que esteve comigo durante oito anos, a casa ficou silenciosa demais. Foi um silêncio pesado. Daqueles que atravessam o corpo inteiro. E foi nesse momento que adotei a Elvira, minha gatinha preta, abandonada ainda filhote.


Ela chegou pequena, frágil, completamente dependente… e virou minha parceira inseparável.


Pode parecer bobo para algumas pessoas, mas cuidar dela reorganizou meus dias. Me trouxe presença. Afeto. Rotina. Companhia.


Elvira

A verdade é que aprender a ficar sozinha exige construção.


E talvez seja exatamente isso que ninguém nos ensina.

Ser uma mulher solteira e feliz não significa viver sem medo, sem carência ou sem momentos difíceis. Significa entender que sua felicidade não pode ficar terceirizada nas mãos de outra pessoa.


Hoje eu produzo mais do que nunca. Trabalho mais focada do que nunca. Tenho tempo para os meus projetos, para os meus amigos, para mim mesma. Nunca me senti tão inteira.


E não, isso não é um manifesto contra relacionamentos.


Não estou dizendo que toda mulher deveria terminar e viver sozinha. Estou dizendo apenas que existe outra possibilidade de felicidade além daquela que nos venderam como única.


Porque, quando você tira a lente do amor romântico compulsório, começa a observar ao redor e percebe algo doloroso: muitas mulheres estão emocionalmente drenadas tentando sustentar relações que as apagaram completamente.


E as mulheres mais interessantes que conheço hoje — as mais vivas, criativas, divertidas, intensas — têm uma coisa em comum: elas não colocam a própria felicidade nas mãos de ninguém.


Elas compartilham a vida. Não entregam a vida.


Talvez o problema seja que fomos ensinadas a enxergar a mulher solteira como alguém incompleta, quando, na verdade, muitas vezes ela só aprendeu a existir sem precisar se abandonar no processo.


E eu queria escrever esse texto justamente para dizer algo que eu gostaria muito de ter ouvido anos atrás:


Sim, existem mulheres solteiras e felizes. Talvez você só nunca tenha conhecido uma de perto. Ou talvez tenha conhecido… e ainda não tenha entendido que também pode ser você.


isaumagarota

 
 
 
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