“ela tem asas, mas em parte alguma pousa”

sou uma apreciadora, criadora e caçadora de analogias. essa frase eu encontrei em um conto da Clarice Lispector, que resolvi ler hoje cedo. assim que terminei a leitura, ainda anestesiada pela narrativa, começaram a surgir diversas reflexões sobre essa frase, muitas analogias possíveis com pousos, voos e asas. minha analogia tem pouca — ou muita, talvez — relação com o conto (que, aliás, você deveria ler! é ótimo), mas resolvi pousar meus pensamentos aqui, em vez de deixá-los voar livremente e acabar perdendo a reflexão. segue o fio:

estar parada por tanto tempo, ainda que, internamente, tudo esteja se revirando e em constante movimento, me faz apreciar as ideias de sair, voar, velejar por aí, conhecer mais do mundo e das pessoas. acho que por isso essa frase me chamou a atenção! movimento interno também é movimento, mas tenho sentido falta de ver o movimento da vida, dos sonhos, das novidades, da mudança. parece que há um mundo paralelo, onde as coisas continuam acontecendo, enquanto estou pausada aqui, quase paralisada pelos meus pensamentos, sem poder executar nenhuma ação (ainda que eu me perca na elaboração das ações — mas isso é papo para outra hora).


depois de ler a frase do conto, lembrei de um ditado que pode se relacionar perfeitamente a essa ideia: “um navio está a salvo no porto, mas não foi para isso que ele foi feito”. ora, tanto para o navio, quanto para as asas a ideia é a mesma. se há a opção do voo, é natural que não se queira pousar. afinal, não foi para o pouso que as asas foram feitas. elas foram criadas, justamente, para a possibilidade do voo, para apreciar o prazer do voo, sentir as novidades trazidas pelos diferentes ventos e a possibilidade de voar cada vez mais alto. é natural que não se queira pousar. e pra mim, apreciadora da liberdade, acho até natural e necessário que não haja espaço para pousar em determinados lugares — principalmente os que nos afastam de quem nós somos.


fiquei pensando nas infinitas possibilidades de interpretação que essa frase desencadeia. acho que consigo escrever outras várias reflexões a partir dessa mesma frase, compondo muitas analogias com a vida. no entanto, a interpretação que mais faz sentido para mim agora é esta:

ainda não tem sido possível voar por aí. não tem sido tão fácil e nem simples fazer planos concretos, todos bem estruturados, que dependam de fatores externos. não tem sido possível pousar nossa vida nos sonhos que desejamos. as viagens, por enquanto, precisam continuar a ser internas. ainda precisamos usar as asas para voar para dentro. e, quanto a isso, quanto mais tivermos a possibilidade de voar e de adentrar internamente nos nossos sonhos, desejos, no íntimo de nós mesmos, tanto melhor. nos conhecer, entender quem somos, perceber tudo o que faz sentido para a gente é um voo que dificilmente terá um pouso. muda-se o céu, mudam-se os planos, mudam-se os ambientes, e acabamos mudando também. mas sempre continuamos no voo interno, porque há sempre mais para se conhecer. meu plano concreto ultimamente tem sido conservar minhas asas para alçar voos internos, sem pousar em parte alguma dentro de mim. não que eu não queira fixar uma morada interna, apenas não quero perder o prazer de apreciar o voo e de perceber as novidades e as possibilidades inumeráveis que existem aqui dentro. 🦋


aliás, quero continuar pousando meus pensamentos por aqui. volto outra hora para comentar sobre as tantas outras possibilidades de analogias dessa frase.

 

Texto publicado originalmente em: https://isadorapinheiro.medium.com/



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