Cerveja e Mulher, o outro lado.

Cerveja e Mulher, o outro lado.

September 1, 2019

E assim como temos a “banda podre” do pessoal que faz da mulher um “produto” associado a cerveja, graças a deusa também existe o outro lado. Que aliás, está sim crescendo.

 

Quando vi um post do Instagram com a Joice da Cervejaria Maltesa aqui de Ribeirão Preto, pensei: preciso falar com ela para saber como foi a caminhada de uma mulher até chegar onde chegou.

 

Joice Buzatto é Sommelière em cervejas, fez pós-graduação em engenharia de alimentos, hoje faz o técnico em meio ambiente e tem muitos outros cursos relacionados a área agregados no decorrer da sua caminhada, ou seja, é muito know how.

 

Fui muitíssimo bem recebida por ela, desde meu primeiro contato via mensagem. Em meio a muito trabalho e a cervejaria que está toda em fase de reforma e montagem (mudaram de endereço), ela me colocou na agenda e fui lá pra um bate papo e algumas fotos (arrasou como modela cervejeira também, apesar de não curtir muito :D).

 

E com esse sorrisão (lógico) com uma das suas criações na mão: uma Witbier maravilhosa de aroma frutado com suco de uva verde, pimenta rosa, casca de limão e coentro batizada de "La Belle Otero".

 

Então vamos lá:

 

Déa: O início de tudo Joice, como você chegou até aqui?

 

Joice: Comecei bebendo cerveja (rs) Sempre procurava por cervejas diferentes nos supermercados, quando viajava para o exterior sempre procurava experimentar vários tipos e tentar entender. Porque na prateleira olhava pelas cores, “ah, escura não gosto”, pelo preconceito de achar que cerveja escura é tudo doce e tal, por não conhecer cerveja artesanal.

 

Comecei a me interessar mais e na época me mudei para Franca, lá tinha um empório e todo final de tarde depois do trabalho eu passava lá. Ficava tomando cerveja e conversando com o dono. Aí eu pensei: “Eu quero um negócio desses pra mim”. Isso há mais ou menos nove anos, quando comecei a entrar no universo cervejeiro, e que eu tenho como trabalho há mais ou menos seis anos.

 

Daí fui viajar, fazer cursos em diversos locais. Todo curso que dava pra eu fazer, eu fazia.

 

E pensando em abrir um empório pra mim, voltei pra Ribeirão.

 

Na época uma amiga de infância que é jornalista, estava escrevendo sobre cerveja. Falei pra ela: “O que você tá falando sobre cerveja? Vamos conversar sobre isso. ”

 

Sentamos pra conversar sobre cervejas e saímos da conversa como sócias para montarmos nosso empório.

 

Procuramos um local para ser nosso ponto e pensei em um nome: “Maltesa! ” Minha amiga gostou. Então já tínhamos um ponto e um nome. Em aproximadamente 60 dias abrimos a loja. Vendíamos as cervejas de “todo mundo. ”

 

Ficamos juntas como sócias aproximadamente um ano, até que por motivos pessoais ela precisou sair da sociedade. Comprei a parte dela e fiquei sozinha na Maltesa.

 

Com três anos de Maltesa, fui viajar pela Europa e conhecer tudo que havia relacionado a cervejas, incluindo museus, mosteiros, bares e todos os passeios cervejeiros possíveis.

 

Voltei para o Brasil, e um dos donos de cervejaria que conheci na Bélgica, me convidou para ficar seis meses lá para trabalhar com ele. Cuidar dos processos da cervejaria, devido ao meu conhecimento e trazer as cervejas dele para o Brasil.

 

Muito me interessei pela proposta e pensei: “Vou dar um pé em tudo aqui e vou! “

 

E quando decido por ir embora, fechar a loja aqui (mas levar minha marca, meu nome), o Marcelo (que hoje é meu sócio), me perguntou: “O que eu preciso fazer pra você não ir embora e abrirmos um cervejaria? ” Eu falei, nem vem! Hahahaha... Ele então argumentou que eu tinha o conhecimento, contatos e que queria abrir uma cervejaria.

 

E saímos dessa conversa sócios também, rs. Uma semana depois começamos a ir atrás de tudo. Surge então a Maltesa Cervejaria.

 

Montamos a primeira fábrica que era na Av. Independência e tinha um bar junto. As receitas são minhas, tínhamos mais um sócio que era o cervejeiro que depois saiu e então abracei outros processos da cervejaria também, como a produção. Fazíamos cerveja de panelinha, rsrs. Começou pequenininho.

 

Fui fazer o curso de Sommelier e outros para agregar e ampliar conhecimento. O de cervejeira ainda não concluí, mas já fiz mais de 20 mil litros na prática. E com tudo isso surgiu a Joice Cervejeira aqui, rs.

 

Hoje sou eu e mais três sócios (só ela de mulher), sendo que toda parte da reforma que estamos fazendo agora, receitas, produção, vendas, entregas, eu estou cuidando.

 

Agora com a reforma e a cara nova, estamos trabalhando para o lançamento de todas as outras cervejas minhas, estamos montando os rótulos. Também camisetas e outros produtos da marca.

 

Déa: E você teve algum problema considerável, algum obstáculo por ser mulher, nesse meio?

 

Joice: No geral, não. Mas já ouvi amigas que sim, tiveram. Talvez a questão é que porque eu me imponha e eu falo de igual pra igual com cervejeiro, então no geral o respeito é mútuo, tanto com o pessoal daqui como de outras cervejarias. E quando preciso de alguma ajuda, sempre me ajudam também.

 

Déa: Falando em obstáculos, você teve algum no processo todo pra montar a cervejaria?

 

Joice: Trabalhamos com recursos próprios, não financiamos nada, então pesa um pouco. O investimento é alto, então é um pouco complicado. Mas hoje está melhor, e acabamos esbarrando mais nas questões de liberações legais, Cetesb e outros órgãos, acabamos travando um pouco nessas questões. Hoje a maior dificuldade acaba sendo nas liberações, parte burocrática.

 

Déa: Hoje quando você para pra pensar no seu trabalho aqui na cervejaria, é o que você imaginava lá atrás, quando estava em Franca bebendo e sonhando?

 

Joice: Na verdade está cada vez melhor, cada vez aprendemos mais, porque diariamente a gente aprende, vai crescendo com isso, vai aprendendo um monte de coisas que você não fazia ideia e daí a coisa vai ficando muito mais bonita. Conforme você vai adquirindo conhecimento e melhorando, aperfeiçoando as receitas, recebendo o feedback do seu trabalho, isso te faz evoluir.

 

Déa: O que você pode dizer para as mulheres que buscam uma referência feminina nessa área, mulheres que também querem trabalhar com cerveja, entrar nesse universo?

 

Joice: Quando você sabe o que está falando, as pessoas te respeitam. Você também precisa saber se posicionar. Então acho que o principal é conhecimento. Quando você responde a uma pergunta em que uma pessoa acha que você não saberia responder, você “cala a boca de muita gente”. Então, adquirir conhecimento pra saber o que está falando, fazer o que sabe e fazer bem feito.

 

Ir atrás do conhecimento, se posicionar, estudar diariamente, porque todo dia tem coisa nova surgindo, nomes diferentes, receitas, estilos. Cursos que fiz me ajudaram e ajudam muito, como por exemplo engenharia de alimentos. Agora estou fazendo o curso de meio ambiente, então a gente aprende sobre os processos de descartes, e outras informações importantes pra área.

Sobre cervejas também, estar sempre lendo. Tem sites bons e ruins, a internet tá aí hoje pra ajudar todo mundo. Falar sobre o que você entende é mais fácil.

 

Quando vou dar palestras, sabe, eu sou péssima pra falar em público, mas como eu sei o que eu estou falando, então tá tranquilo, rs.

 

E o número de mulheres no meio cervejeiro está crescendo, então, é buscar conhecimento sempre e aprender a se posicionar, independente de “ah não, é mulher”, a mulherada tá aí a frente de laboratórios principais, a frente de várias cervejarias na produção, eu estou não só na cozinha mas também no administrativo da empresa.

Então, é saber se impor e correr atrás do conhecimento.

 

 É isso minha gente!

 

Um exemplo real pra gente refletir. A gente sempre começa bebendo, hahahaha!

 

O bate papo com a Joice foi superimportante pra mim, e realmente espero que pra vocês também. Conversamos um pouco depois da entrevista, ela me mostrou a fábrica que está em processo de reforma devido a mudança de endereço, é muita coisa pra colocar em ordem e poder funcionar de fato.

 

Concordo com o que ela disse, e é verdade que conhecimento ninguém tira da gente e nunca, nunca é muito.

 

Sabemos também que cursos para área cervejeira tem um valor de investimento alto, o que acaba por barrar muitas vezes a gente que quer, mas não tem a grana. (Oi!)

 

Então enquanto isso, como a Joice disse, vamos aproveitando o que a internet tem de bom, saber selecionar as informações (tem muita coisa ruim também), ter discernimento, e ir estudando com os recursos disponíveis.

 

E claro, torcer para termos mais oportunidades, ir atrás delas também, tem muita mulher interessada nessa área (Oi!). E é aquilo que eu e a Joice conversamos também antes da entrevista, é muito mais trabalho do que glamour, ou, nenhum glamour no dia a dia. A coisa é séria, é muito trabalho, muita dedicação, muito estudo, muito suor.

 

Meu muito obrigada mais uma vez a Joice e a Cervejaria Maltesa pela oportunidade de nos deixar adentrar um pouco esse universo, pela gentileza, atenção e sinceridade.

 

Um brinde à mulherada cervejeira! 🍻

Cervejaria Maltesa

Instagram: @cervejariamaltesa

 

 

 

 

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